Carta da Jornada Sobre Acidificação dos Oceanos

Resta apenas um minuto! O planeta terra surgiu a cerca de 4,6 bilhões de anos. Se colocarmos toda a evolução do planeta em um período de 46 anos, o homem surgiu a 4 horas. Da Revolução Industrial até aqui, último minuto da história recente da vida, fomos responsáveis pela transformação do planeta a ponto de produzirmos o Antropoceno – uma nova Época do planeta, marcado pela ação humana. Se mantermos o nosso modo de vida, com forte interferência na dinâmica da terra, a previsão é que resta apenas um minuto para resguardarmos o direito das gerações futuras de terem um ambiente saudável e equilibrado! Mas ainda dá tempo!

Os efeitos mais divulgados e conhecidos da interferência humana no planeta são as mudanças globais no clima e sua resultante na alteração do nível do mar, aquecimento e aumento da frequência de tempestades. Contudo, mudanças globais não são apenas climáticas. Um dos assuntos menos conhecido e altamente impactante é a acidificação dos oceanos. Acidificação é a redução do pH dos oceanos por longos períodos de tempo (décadas ou mais). Esta redução do pH é causada principalmente pelo aumento contínuo das emissões antropogênicas de CO2 para a atmosfera. Este gás é absorvido e reage com a água do mar formando um ácido que reduz o pH dos oceanos. Comparado aos níveis pré-industriais, o CO2 na atmosfera aumentou 40%, enquanto nos oceanos esta elevação foi de 26%, com consequente acidificação que causa alterações no crescimento, reprodução e sobrevivência de diversos organismos – inclusive de espécies com importância econômica e social – comprometendo serviços e produtos ecossistêmicos, recursos naturais essenciais para a resiliência da economia e modo de vida das comunidades costeiras.

Neste cenário de mudanças, Santa Catarina se coloca nacional e internacionalmente com destaque. Por um lado, somos dependentes de um oceano saudável e equilibrado, pois vivemos da pesca, da aquicultura e do turismo. Por outro lado, somos o principal produtor de carvão mineral do país (6,2 a 9,5 mil toneladas/ano nos últimos 10 anos) e um grande poluidor dos mares, pois dispomos de um baixo índice de saneamento básico (somente 16% dos municípios com tratamento de esgoto). O uso de combustíveis fósseis e a poluição das áreas costeiras por esgotos domésticos e industriais estão entre os principais fatores causadores da acidificação dos oceanos.

Com estas motivações e desafios, pesquisadores brasileiros, portugueses, chilenos, ingleses, políticos, gestores, tomadores de decisão, representantes de sociedade civil organizada, alunos e comunidade se reuniram nos dias 05 e 06 de Junho de 2017, em Florianópolis, na “Jornada sobre Acidificação dos Oceanos” e sugerem as seguintes ações estratégicas referentes ao tema:

• É urgente a mudança de cada cidadão e da sociedade para uma matriz energética sustentável e não dependente de combustíveis fósseis, que é a raiz das mudanças globais dos oceanos e do clima;

• É urgente a ampliação para 100% do sistema de tratamento de efluentes residenciais nas cidades costeiras, bem como a disseminação de técnicas eficientes de tratamento em escala uniresidencial em terrenos onde o lençol freático aflora, mitigando a poluição (do tipo eutrofização) dos sistemas costeiros.

• É urgente o apoio à inovação tecnológica na área de matriz energética renovável;

• É urgente o apoio à inovação tecnológica na área de restauração, recuperação ou biorremediação de ecossistemas marinhos e costeiros;

• É urgente o desenvolvimento de ferramentas, tecnologias e processos de adaptação de comunidades vulneráveis ao processo de acidificação, com foco especial na comunidade da pesca e aquicultura;

• É urgente mapear e monitorar, inclusive com a participação da sociedade, as principais atividades causadoras da acidificação, bem como entendermos suas consequências socioeconômicas e ambientais, propondo possíveis ações mitigadoras e de adaptação às mudanças;

• É urgente mapear e a quantificar o potencial sumidouro de CO2 dos ecossistemas costeiros, os quais são conhecidos pela capacidade em estocar carbono e servir como mitigadores das mudanças climáticas e dos oceanos;

• É urgente a criação de ferramentas para armazenamento e disponibilização de dados já coletados por diferentes instituições sobre a região marinho-costeira.

• É urgente que as informações técnicas sobre as mudanças nos oceanos e no clima sejam repassadas para a comunidade por via da educação e comunicação ambiental, bem como por meio da capacitação e formação de agentes multiplicadores.

• É urgente que se faça o debate com a sociedade e que esta tenha participação efetiva nas proposições de ações para mitigação, reparo, proteção e adaptação às mudanças nos oceanos e no clima;

• É urgente a participação da sociedade na prospecção e proposição de recursos, como o uso de compensação ambiental e fundo de pesquisa das empresas geradoras de energia, para realização das pesquisas científicas e das ações de mitigação e adaptação às mudanças nos oceanos.


JA Oceano nasce em meados de abril a partir de uma discussão promovida por grupo da ONU que está a frente do tema acidificação oceânica e o processo de organização da Conferencia dos Oceanos. Nestas discussões percebe-se que a carência de informação alimenta a inércia e muitas das ameaças aos oceanos.

A acidificação dos oceanos é um processo “silencioso” de transformação dos produtos e serviços especialmente de ambientes costeiros.
informações sobre o que é, causas, consequências e eventuais soluções, são ainda mais necessárias e estratégicas. Quando tratamos de acidificação dos oceanos, tratamos do potencial comprometimento de recursos naturais que são estratégicos e parte da segurança alimentar de muitos países, inclusive o nosso.

Junte-se a nós nessa caminhada de divulgação, informação e discussão de soluções e prioridades de abordagens em relação ao tema.